Carniceiro de Blaviken, Lobo Branco ou simplesmente Geralt de Rívia. Um temido e respeitado bruxo que, em troca de um pagamento justo, percorre os reinos do Continente oferecendo seus serviços a quem precisa se livrar das mais horrendas criaturas que espalham histeria, mortes e criam até tensões políticas capazes de fragilizar governos.
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Apesar de ser um exímio assassino, com feitos reconhecidos e cantados por todos, Geralt não está livre do estigma de sua própria existência. O mundo conhece sua natureza mutante e o treinamento brutal ao qual foi submetido desde a infância, transformando-o em uma máquina de matar supostamente incapaz de demonstrar emoções. Tudo isso consequência da Prova das Ervas — uma etapa tão desgastante no ritual de criação de um bruxo que é capaz de alterar para sempre seu corpo, embranquecendo os cabelos, empalidecendo a pele e deixando seus olhos amarelos como os de um felino.
Ao combinar o preconceito da sociedade à visceralidade de seus atos, temos um misto de repulsa e admiração que o coloca constantemente diante de dilemas morais capazes de testar os limites de sua humanidade. O que ninguém imagina é que o Destino preparou algo grandioso para Geralt. Ao longo de sua jornada, cada batalha deixa de ser apenas um contrato cumprido e se torna mais um passo em direção a um futuro inevitável.
O Último Desejo – The Witcher Vol.01, de Andrzej Sapkowski
Toda vez que leio O Último Desejo lembro da exata sensação que tive quando descobri esse livro, em 2011, logo depois de me encontrar fascinado com The Witcher 2: Assassins of Kings. Eu simplesmente pirei ao descobrir que aquele universo fantástico tinha suas origens na literatura e, assim como aconteceu quando assisti a O Senhor dos Anéis, corri atrás dos livros para mergulhar de vez na saga do bruxo Geralt de Rívia.
Desde então, já reli O Último Desejo algumas vezes e, não surpreendentemente, sempre termino a leitura com a mesma sensação: esta obra continua sendo espetacular.

Publicado originalmente em 1993, O Último Desejo (Ostatnie życzenie, no original) reúne parte dos contos que Sapkowski publicou em revistas polonesas entre 1986 e 1992. Curiosamente, ele foi o segundo livro lançado pelo autor, já que A Espada do Destino havia chegado às livrarias um ano antes, embora hoje seja considerado o segundo volume na ordem cronológica da saga.
Mais do que servir como introdução à franquia, a obra estabelece a identidade de The Witcher ao transformar histórias independentes em um retrato consistente do Continente e de seus conflitos. Não por acaso, a Saga do Bruxo Geralt de Rívia se consolidou como um dos grandes expoentes da dark fantasy, subgênero que combina fantasia, horror e violência em uma visão profundamente pessimista da natureza humana, substituindo heróis idealizados por personagens moralmente ambíguos e um mundo devastado por guerras, desesperança e disputas de poder.
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Como se essa ambientação já não fosse suficiente para conquistar o leitor, Sapkowski encontra um de seus maiores diferenciais ao reinterpretar contos de fadas dentro desse universo brutal. Branca de Neve e os Anões, o Gênio da Garrafa e até mesmo A Bela e a Fera ganham novas e sombrias camadas em releituras que subvertem completamente suas versões clássicas.
Esses elementos, combinados à escrita dinâmica do autor, dão origem a histórias que nunca se resumem ao conflito básico entre bem e mal. Tudo ganha um contorno cinzento e dramático, despertando uma constante sensação de dualidade e levando o leitor a questionar as decisões dos personagens diante de conflitos em que todos parecem estar errados.
O conto Um Grão de Veracidade talvez seja o melhor exemplo dessa proposta. Ao adaptar A Bela e a Fera de maneira brutal e perturbadora, Sapkowski nos prende à complexidade de um universo em que a maldade é apenas mais uma vertente da natureza humana. Sua conclusão deixa claro que The Witcher está muito distante da alta fantasia derivativa dos reinos mágicos criados por Tolkien.
“Duas espadas. Uma de prata, uma de ferro. Uma para criaturas e outra para homens. Ambas para monstros.”
A história que abre o livro também vale ser mencionada, visto que foi usado como base para a construção do trailer cinematográfico do primeiro jogo, lá em 2007. Em O Bruxo, temos Geralt lutando contra uma princesa amaldiçoada e presa ao corpo de uma criatura conhecida como estrige. Enquanto acompanhamos seu dilema pessoal de matar ou não a criatura, também descobrimos mais sobre os acontecimentos que levaram a nobre a ter um destino tão atroz. É um conto que inaugura a obra com maestria e estabelece, em poucas páginas, o tom soturno, violento e profundamente trágico que define todo esse universo.
Acredito que tornar esse livro o primeiro da série foi uma jogada certeira, pois é justamente nessa obra que somos abrilhantados pela máxima genialidade do autor. O cuidado com que as histórias são escritas, mesclando de maneira extremamente inteligente os elementos de contos de fadas com um cenário desalentador, garantem ao primeiro livro da série a alcunha de ser um dos melhores da saga.
Se há um ponto que pode ser apontado como negativo na obra, é a escrita não linear de Sapkowski e o uso de alguns anacronismos na narrativa. Ao alternar constantemente entre passado, presente e até mesmo futuro, o autor exige uma atenção maior do leitor para compreender a ordem dos acontecimentos e como cada história se encaixa na trajetória de Geralt. Não por acaso, essa estrutura também foi alvo de críticas na primeira temporada da adaptação da Netflix, que acabou tornando essas elipses temporais ainda mais confusas.
Ao todo, o livro reúne sete contos. Entre eles, A Voz da Razão funciona como o verdadeiro fio condutor da obra, sendo dividido em sete capítulos que se intercalam com as demais histórias, ela conecta todos os acontecimentos à vida do bruxo e organiza, gradualmente, sua linha do tempo.
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O Último Desejo, de Andrzej Sapkowski, é um início praticamente perfeito para a saga e uma leitura obrigatória tanto para fãs de fantasia quanto para quem conheceu Geralt pelos jogos ou através da adaptação pela Netflix, que já se encaminha para sua quinta temporada, ainda em 2026. Vale lembrar que a maior parte dos contos deste primeiro volume foi adaptada nas duas primeiras temporadas da série, até então, protagonizadas por Henry Cavill. Sendo assim, se você já assistiu a série, vai reconhecer bastante coisa.
Além disso, este talvez seja o melhor momento para ter acesso aos livros. A Martins Fontes tem publicado os oito volumes em diferentes formatos — box capa cartão, box capa dura, edições individuais com capas clássicas ou inspiradas nos jogos — além de disponibilizar toda a saga no Kindle Unlimited, permitindo ler todos os livros em um só lugar, na sua biblioteca digital.
Vale a pena aproveitar a promoção de dois meses gratuitos do serviço e conhecer uma das fantasias mais influentes da literatura contemporânea. Não perca essa chance!








