Introdução – Punk Rock Jesus; Sean Murphy

Assim como no meu antigo e extinto blog (quase) homônimo, o quadrinho que eu escolhi para dar início às nossas resenhas não poderia ser outro, senão o polêmico Punk Rock Jesus. Afinal, foi a vontade de falar sobre essa obra na época que me motivou a criar o projeto e que, agora em 2021, me traz de volta para a escrita crítica.

E não é por menos que esse gibi vai ganhar uma nova análise por aqui. Além de ser um ótimo material, com um enredo bacana e discussões bastante pertinentes até hoje, desde a sua primeira publicação no Brasil, houve um relançamento que trouxe um acabamento deluxe para o quadrinho.

Portanto, sem mais delongas, vamos falar dele agora!

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Punk Rock Jesus – Capa Ed. Panini Comics (2018)

Desde a primeira vez que escrevi sobre Punk Rock Jesus muitas das minhas considerações sobre a obra mudaram. Acredito que hoje posso dar uma opinião mais “crítica” do que no último texto – e vocês vão sentir isso em seu decorrer.

Entretanto, uma coisa permanece intacta: o objetivo desta resenha é criar discussões respeitosas sobre os diferentes pontos de vista que a HQ pode abordar. Independente de serem questões políticas ou religiosas. Neste blog só vamos aceitar debates construtivos e não será aceito nenhum tipo de intolerância.

Aproveite esse espaço para se expressar e trazer as suas vivências, opiniões e até mesmo questionamentos para construir um ambiente virtual saudável. Já tem muito site tóxico por aí, né?

Esse aviso se estende a todas as resenhas e textos futuros também, então, guarde bem essa nossa “missão” e contribua para que ela sempre seja a maior prioridade do Ler ou Não Ler.

Obra e autor

Bom, Punk Rock Jesus é uma minissérie escrita e desenhada por Sean Gordon Murphy para o antigo selo adulto da DC Comics,Vertigo.

Originalmente foi publicada em seis edições mensais de setembro de 2012 a fevereiro de 2013 e, em abril do mesmo ano, ganhou um encadernado compilando a série toda em 224 páginas, lançado nos Estados Unidos. Em novembro de 2014 o encarnado foi republicado por lá em uma edição deluxe, que contou com comentários do autor e mais de 100 páginas de extras.

Muito provavelmente por conta do hype criado pelas críticas gringas e pelos próprios leitores que discutiram as polêmicas abordadas pela obra em todo canto, a Panini Comics não demorou para publicar o quadrinho por aqui também, começando em março e terminando em agosto de 2013.

Apesar de seguir o padrão de publicação mensal, semelhante ao original, a primeira vez que Punk Rock Jesus saiu no Brasil foi dentro da hoje extinta revista Vertigo, que reunia títulos como Hellblazer, Vampiro Americano, Escalpo e até a série Sandman Apresenta.

Curiosamente, apenas a primeira edição da revista teve sua capa com a arte da minissérie. Três das outras cinco edições destacavam os arcos do Constantine, um do Vampiro Americano e a última do Escalpo.

Obviamente, muitas dessas decisões editoriais eram estratégicas e buscavam destacar aquilo que teria mais vendas. Mesmo assim, não deixa de ser curioso que uma série de tanto sucesso internacionalmente tenha recebido somente uma capa por aqui. Vai entender.

Apesar de ter recebido muitas críticas positivas na época, o encadernado do material só saiu por aqui em março 2018 – em uma belíssima edição, diga-se de passagem. Com capa dura, lombada quadrada, 364 páginas, páginas coloridas, papel couché de boa gramatura, extras e um acabamento de muita qualidade. Sem dúvidas, um quadrinho do nível que um autor como Sean Murphy merece.

Para quem não conhece, Sean Gordon Murphy é um quadrinista americano extremamente versátil, com trabalhos como roteirista, desenhista, arte-finalista e artista de capas. Seus trabalhos mais recentes vão desde Mulher-Gato, Batman: O Cavaleiro Branco, Chrononauts e sua série pela Image Comics, Tokyo Ghost.

Seu interesse pela 9ª arte surgiu relativamente cedo, ainda no ensino fundamental, o que fez ele se tornar aprendiz de pintor e cartunista anos mais tarde, na cidade de Salem.

Em 1999 se formou no colégio Pinkerton Academy, em New Hampshire, e mais tarde passou a frequentar o Massachusetts College of Art, em Boston, e posteriormente o Savannah College of Art and Design, em Atlanta.

Antes de se formar, chegou a trabalhar em alguns títulos de Star Wars pela Dark Horse Comics e foi creditado como artista nas edições 15 e 19 da revista Star Wars Tales, nas histórias Slippery Slope e Into the Great Unknown, respectivamente.

Em 2003 se mudou para Hollywood com um amigo em busca de trabalho na área de produção de concept arts para games e quaisquer outras atividades artísticas na indústria do entretenimento que fossem mais lucrativas do que seus trabalhos como freelancer de quadrinhos. Nesta época, chegou a dormir em uma lixeira com seu colega depois de cinco dias de viagem até a costa oeste do país.

Não chegou a passar necessidades, afinal, mesmo que estivesse com pouco dinheiro, ainda tinha uma minissérie de quatro edições para ser publicada pela Dark Horse, onde receberia US$ 200 por página, mas pensando em economizar o máximo possível em uma cidade nova, optaram por passar a noite na rua. Naquela situação em que estava, aproveitou para pensar sobre seu futuro e o caminho que queria seguir em seu novo desafio.

Não demorou muito para que ele concluísse que queria ser semelhante ao seu ídolo Mike Mignola, criador do famoso personagem dos quadrinhos Hellboy.

Portanto, não queria passar a vida escrevendo personagens dos outros, e mesmo que recebesse um dinheiro razoável com trabalhos envolvendo grandes séries como Star Trek e Jovens Titãs, ou mesmo minisséries como Batman/Espantalho – Ano Um, queria algo diferente para sua vida.

Mas querer não é poder e, felizmente, Murphy sabia disso. Para que tivesse o tão desejado “controle da sua vida” precisa se especializar naquilo que queria fazer.

É inegável que ele sabia desenhar e com um portfólio tão robusto quanto o que tinha, muitas portas seriam abertas facilmente. Entretanto, ele detestava escrever e seus roteiros não eram tão bons – o que o obrigou a investir em livros e materiais de estudo para se dedicar totalmente nesse quesito que seria um empecilho em sua jornada.

Em um ano, terminou o seu primeiro projeto chamado Kael (se pá uma referência ao Superman “bem discreta”) sobre um agente do Exército Republicano Irlandês (IRA) em Belfast. E só.

Bom, provavelmente tinha mais coisa no roteiro, mas assim como outros esboços inacabados, com furos de roteiros, arcos de personagens sem objetivo e uma série de personagens clichês que criou e os abandonou em inúmeros cadernos, não era uma boa história.

Como já tinha dedicado um tempo trabalhando em Kael, decidiu pegar as melhores ideias para desenvolver melhor em seu próximo roteiro. Foi então que começou a escrever Off Road, um quadrinho bastante simples sobre amadurecimento, mas que conseguiu lançar pela revista Oni Press em 2005 e ganhar um prêmio da American Library Association Awards.

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Off-Road (2005)

O tempo passou, Murphy se mudou para Nova York, vários projetos começaram a aparecer – incluindo alguns de games – até que assinou um contrato de exclusividade com a DC Comics e conquistou uma notoriedade maior escrevendo para títulos como Hellblazer, Novos Titãs e Vampiro Americano.

Em 2006 seu quadrinho original passou a receber um desenvolvimento mais detalhado e profundo, se aproximando mais daquilo que veríamos em Punk Rock Jesus.

Contudo, ele só conseguia focar no projeto em seus momentos livres – o que acabou atrasando um pouco sua produção e lançamento.

Neste meio tempo em que estava colocando ordem em suas ideias, Murphy leu um artigo sobre clonagem humana e seus pensamento sobre essa possibilidade geraram alguns questinamentos sobre quem deveria receber essa “honra”. Automaticamente, respondeu sua própria questão com ninguém menos que Jesus Cristo.

Admito que não seria a primeira opção da minha lista, mas concordo com a sua linha de raciocínio, já que os Estados Unidos não iria perder a chance de gritar “We’ve got the American Jesus”.

Além disso, seu devaneio sobre a possibilidade de criarem um reality show para mostrar a vida do clone não só faz sentido, como também é extremamente plausível, levando em consideração o fato dos EUA serem o maior produtor da indústria dos realitys no mundo – sobre todos os temas possíveis.

Pegando esse conceito e misturando com um pouco de What if…?, definiu que não haveriam possibilidades de uma criança crescer neste meio sem surtar com toda atenção e expectativas recebidas de pessoas do mundo inteiro, tanto daqueles que veriam com bons olhos a segunda vinda de Cristo, quanto daqueles que considerariam a maior heresia da história da humanidade.

Portanto, a probabilidade do clone se revoltar seria grande. Mas e as chances dele se tornar ateu?

Com isso em mente, Sean Murphy colocou no papel todas as suas ideias para essa ficção, criou uma trama para o clone de Cristo, encaixou a narrativa de Kael ali no meio como uma história secundária e lá estava Punk Rock Jesus. Uma trama complexa, com dois personagens que iriam se cruzar em determinado momento e iriam deixar os crentes do mundo real extremamente revoltados.

Mas isso não aconteceu da noite para o dia. A história que começou a ser desenvolvida em 2006 foi apresentada para DC somente em 2011. Enquanto isso acontecia, muitas alterações em sua estrutura foram feitas e, aquilo que foi criado para ser apenas polêmico, foi amadurecido para abordar discussões mais relevantes.

Vale lembrar que em 2010 Murphy trabalhou na minissérie Joe, o Bárbaro, que já tinha uma história melhor-elaborada e, com certeza, afetou Punk Rock Jesus.

Na época a Vertigo se interessou pelo projeto e a Karen Berger foi denominada como editora responsável pela publicação da obra, que deveria ser transcrita do roteiro de cinema com 200 páginas para um de quadrinhos, dividido em seis edições de 32 páginas.

Foi então que Murphy e Karen passaram a revisar o material para encontrar oportunidades de melhorias no enredo.

Algumas alterações foram feitas nas personagens femininas, que eram um dos pontos mais fracos do autor, mas que sua editora ajudou a retrabalhá-las para criar mulheres fortes e representativas.

Já o título, que era uma das coisas que Sean mais odiava inicialmente no projeto, se manteve o mesmo – todos amaram a ideia e só optaram por deixar como estava.

Em dezembro de 2012 a última página do quadrinho foi finalizada. Então era só lançar e torcer pelo melhor.

Contextualização da obra

Em um futuro próximo, a prepotência humana se torna tão grande que um reality show sobre a vida de um clone de Jesus Cristo é considerado uma boa ideia para um novo tipo de entretenimento manipulativo promovido por uma gigantesca corporação chamada OPHIS.

Como se não bastasse entrar em um tema tão delicado quanto a religião, o envolvimento do programa com a ciência e a sua contribuição para conseguir o avançado feito genético faz que, mesmo antes de nascer, a criança se tornasse o ser humano mais famoso do mundo – extremamente amado e odiado, ao mesmo tempo.

Tudo isso construído graças a uma brecha na lei que permitiu a criação do programa J2 e de um complexo extremamente luxuoso de mesmo nome, localizado em uma ilha afastada da cidade e que seria palco das transmissões mais bizarras da história.

O projeto encabeçado pelo executivo chefe da OPHIS, Rick Slate, tinha que ser perfeito para atrair a maior visibilidade possível. Para isso, contratou uma equipe formada pelos melhores profissionais disponíveis, como a Dra. Sarah Epstein, uma geneticista e ambientalista que trabalhou com clonagem de ursos polares para adiar sua extinção e até chegou a ganhar um prêmio Nobel pela criação de uma hiperplanta que consumia mais dióxido de carbono (CO²) do que qualquer outra, mas que acabou tendo seus planos de polinização da Amazônia vetado por ordens judiciais.

Por mais que Epstein acreditasse que o que estava fazendo era errado, desde o começo do projeto, ela deixou claro que suas intenções eram puramente de interesse na verba oferecida pela corporação, pois, a partir desse recurso, daria continuidade ao desenvolvimento do seu projeto com as algas.

Para tentar ganhar mais engajamento de todos os grupos prós e contras a existência do programa, Slate exigiu que a clonagem de Cristo, que seria feita com resquícios do seu DNA deixado no Sudário de Turim, fosse realizada em uma jovem virgem (claro que ele não perderia essa chance).

Além da “oportunidade” de carregar a segunda encarnação de Cristo, a adolescente escolhida viveria uma vida de luxo, com tudo do bom e do melhor que seu complexo pudesse oferecer em troca da sua liberdade – ou seja, ela não poderia sair dali mais.

Para cuidar da segurança do J2 e todos os participantes dessa loucura, Slate precisava de alguém que fosse experiente e implacável em sua tarefa, então nomeou Thomas McKael como o chefe da guarda do reality show, responsável por proteger todos, mas principalmente, a virgem escolhida para gerar a criança, Gwen Fairling.

É pela visão de Thomas que somos apresentados a HQ, com um flashback nas primeiras páginas que revelam um pouco da sua infância em Belfast, na Irlanda.

Após uma prece antes do jantar sua família é surpreendida por um ataque de terroristas armados, obrigando o pai de Thomas a trancá-lo em um armário e lhe dar uma escopeta com dois tiros para se defender, caso necessário.

Quando o tiroteio acabou, o jovem percebeu que estavam tentando abrir o armário e disparou sua arma, mas ao sair viu seu pai caído no chão.

Não demorou para que seu tio entrasse na casa e se deparasse com a cena do irmão morto e, apesar de entender o que tinha acontecido ali, pega a criança e sua nova Indian Scout 1939 que acabara de herdar do pai para fugirem de lá.

Através do olhar da criança, chegamos ao presente, onde Thomas já está adulto, montado em sua moto, armado e pronto para começar seu trabalho .

Nove meses após o início do programa que já acompanhava toda a gravidez de Gwen (desde a fertilização até o momento em que entrou para a mesa de cirurgia), no dia 25 de dezembro , o menino batizado de Chris nasce, com direito a um evento transmitido para o mundo inteiro.

A partir daí, as coisas começam a ficar mais complicadas – para todos.

Grupos cristão de extrema-direita entram na história pedindo o fim do programa com ataques armados ao complexo, diversos segredos de Slate revelam detalhes inadmissíveis sobre a criação do reality show como o assassinato de uma irmã gêmea de Chris que ninguém sabia da existência, além de muitas outras situações que o clone é submetido e o colocam em em um caminho sem volta rumo ou ateísmo-militante, caucado em estudos científicos, pensamentos filosóficos e muito punk rock, obviamente.

Análise

Como deu para perceber, a trama envolve diversos temas delicados que passam pela religião, dão a volta na política, trombam com a ciência e caem de cara em críticas sobre a sociedade moderna e o comportamento humano.

Mas, por incrível que pareça, tudo isso é encaixado de forma natural em uma trama envolvente, impactante e simples.

Ao longo das seis edições, vamos acompanhando a criação de Chris pela sua mãe e todos os outros “participantes” do J2 – principalmente o Thomas, que é o segundo protagonista da trama, com um arco que vai se desenrolando até o final da minissérie. Passamos a entender sua motivação e o que aconteceu em seu passado, após o atentado que tirou a vida de seus pais.

Thomas é aquele típico personagem brutamontes, caladão e que desce a lenha em todo mundo sempre que precisa. Nem seu visual tenta esconder isso.

Apesar de ser, descaradamente, um protagonista criado para que haja momentos de ação, seu desenvolvimento consegue instigar o leitor que fica querendo saber mais sobre seu passado e quais foram as suas decisões tomadas para que chegasse ali, naquele momento.

Como vocês devem ter percebido, não foi apenas seu nome que foi retirado do roteiro de Kael. Toda a história sobre um soldado do IRA, em uma cruzada na Irlanda e sua jornada de redenção sobre seu passado, veio de lá.

Isso é bacana, pois seu desenvolvimento durou anos, então existem alguns pontos em sua trama que podem te surpreender – mas, acima de tudo, vão te fazer pensar.

Em relação ao clone de Cristo, temos uma história igualmente complexa que passa pelos principais momentos da sua vida, desde a infância até a adolescência, e mostram os impactos cruéis que uma pessoa sofre ao ser privada de coisas simples como educação, cultura e socialização.

Quando esses pontos se entrelaçam as crítica ao Big Brother temos uma obra que atual, que nos faz pensar sobre os limites do entretenimento, da exposição e de que forma o consumo desse conteúdo movimenta uma cadeia manipulativa da opinião pública – geralmente, colocando pessoas em diferentes extremos para debater o certo e errado.

Podemos ver parte dessa “lavagem cerebral” quando o grupo conhecido como Novos Cristãos Americanos (N.C.A), liderado pela radical Daisy Milton, provoca manifestações violentas à sede do programa e declara uma guerra contra seus participantes por estarem zombando da fé cristã.

Obviamente, ele arrasta muita gente com seu discurso inflamado e boa parte acaba se ferindo nesse processo.

Mas isso é uma das interpretações que tive do gibi. Certamente o maior vespeiro que ela toca é o da religião.

Seja por abordar a clonagem de uma figura tão controversa, colocá-lo como um ateu ou mesmo mostrar como sua amargura o levou a virar vocalista de uma banda punk chamada The Flak Jackets – cujo seu primeiro álbum American Nightmare foi concebido em resposta ao conservadorismo e fundamentalismo cristão para pregar ideias anti-religiosas no mundo todo.

Na verdade, o quadrinho todo é assumidamente uma grande crítica aos comportamentos tóxicos presentes na religião e as suas consequências na sociedade. Toda ação realizada por um personagem gera uma consequência e, geralmente, a intolerância, provoca o ódio e culmina em conflitos.

Sean Murphy acertou demais neste quesito.

Mesmo parecendo ser denso, com muita coisa pra acontecer em apenas 200 páginas, a narrativa é simples e fluida. Houveram poucos momentos em que senti que o enredo poderia estar sendo arrastado e, na sua maioria, eram apenas porque estava curioso pelo que vinha pela frente.

Os momentos de ação são bem equilibrados com algumas cenas que mostram a vida daquela “família” pouco funcional e seus dilemas éticos s
obre o J2.

Admito que, mesmo sendo um personagem bem clichê, Thomas tem um dos arcos mais legais de Punk Rock Jesus e seu desenvolvimento consegue te prender até a última página da HQ (literalmente).

Faz jus a todas as críticas positivas que ele teve durante o lançamento da minissérie – tornando-se um dos personagens aclamados pelos fãs.

Para ser sincero, quase tudo nesse quadrinho pode soar meio clichê. Personagens, dilemas e até mesmo suas histórias podem ser previsíveis para alguns leitores.

Acho que dessa última vez que li, percebi um pouco do “amadorismo” do autor na escrita. Não que ela seja ruim, longe disso. Mas você percebe a utilização de recursos narrativos simples para o desenvolvimento do enredo.

Isso não chega a atrapalhar em nenhum momento, porém, é legal você ir com essa ideia de que não vai ler um Watchman da vida, já que vai se deparar com coisas tipo: situações esperáveis e personagens levemente estereotipados.

Um exemplo disso acontece com o jovem negro Tim, chefe de engenharia responsável pelos sistemas do complexo. Na maior parte do tempo, ele pende entre o alívio cômico e a bússola moral de Thomas.

Em um determinado momento da HQ ele faz uma piada justamente sobre sua posição e características física – um homem negro (coadjuvante) engraçado. Então eu me pergunto, se o autor concluiu que ele estava caindo em um clichê, por que ele simplesmente não mudou o personagem? Recurso narrativo. Usar aquilo que já foi feito um milhão de vezes e deu certo.

Isso se repete algumas vezes ao longo do gibi e ele chega até a bater no conceito de Women in Refrigerators em certo momento.

Mas tudo bem, porque é um material divertido e que tem tanto conteúdo que você consegue relevar facilmente.

Existem momentos épicos, tristes, que trazem reflexão ao leitor ou simplesmente o deixam apreensivo. Isso é muito legal.

Existe um outro recurso narrativo usado bastante no quadrinho também que eu gosto bastante, que é a aparição de um personagem da mídia para atualizar os leitores de coisas que não precisam estar em quadros ou diálogos específicos, como de que maneira os espectadores estão reagindo ao programa ou acontecimentos, e até debates entre especialista de lados opostos. Neste caso, o apresentador Don Baker e seu programa Pinga-Fogo.

Esse esquema torna o texto conciso e te dá a visão de modo geral sobre todas as bolhas que estão acompanhando o mesmo programa. Me lembra muito o que foi feito pelo Frank Miller em Batman: O Cavaleiro das Trevas, de 1986.

Por outro lado, um ponto que talvez não agrade a todos é a arte do Murphy. Além de ser um quadrinho em preto e branco, seus desenhos possuem traços fortes, com riscos que ultrapassam alguns limites das composições, em certos momentos.

Esse estilo semelhante a sketchs pode desagradar algumas pessoas ou mesmo ser indiferente para outras. No começo eu não era tão fã também, mas acabei me acostumando ao ler os materiais produzidos pelo Murphy, como o próprio Joe, o Bárbaro, que tem uma estética bem parecida.

Mas goste ou não, os desenhos são bem feitos – tanto para os cenários quanto as cenas de ação. Os personagens são um show à parte, já que sua expressividade é um dos recursos que o autor mais usa para demonstrar sentimentos, transições de comportamento, etc.

Nos extras do encadernado, há diversos comentários sobre como ele usou diversas técnicas para trazer mais humanidade para cada personagem – com destaque especial para o Thomas, que consegue mostrar muito mais dos seus sentimentos pelos olhos do que pelos diálogos/monólogos ao longo da história.

Edição

E já que chegamos ao tópico sobre a edição em si, preciso dizer que esse encadernado da Panini está bem fiel ao que foi feito na gringa.

Com todo o conteúdo essencial traduzido (exceto por algumas onomatopeias que estão com a escrita em original, em inglês), cerca de 200 páginas com a minissérie e mais outras 160 com extras – incluindo as capas e roteiros originais, artes conceituais, ficha técnica dos personagens e um texto sobre a vida do autor.

No total, são 364 páginas coloridas, em um encadernado de capa dura, lombada quadrada, papel couché de boa gramatura e acabamento de primeira.

Infelizmente, tudo isso que eu disse encarece o produto e, atualmente, você encontra esse material na faixa dos R$ 92,00.

E, assim, por mais que eu o ache legal e tenha rasgado o verbo para falar da edição, acho que esse valor está bastante alto. Para vocês terem uma ideia, quando fiz a minha compra, em junho de 2020, paguei R$ 31,90 – menos da metade do valor que está sendo cobrado hoje.

Por isso, meu conselho é que se você se interessou e quer comprar o encadernado da Panini, espera uma promoção.

A Amazon dá descontos direto, a Saraiva às vezes precisa liberar o estoque e também aparece com ofertas bacanas. Então, aguarde. Vai encontrar um valor mais acessível em breve.

Mas é isso. Senhoras e senhores, o nosso blog de resenhas está de volta, de cara nova e agora com muita coisa pra sair. Espero que gostem desse trabalho e peço que deixem suas sugestões nos comentários abaixo, principalmente sobre esse formato de texto extenso.

Vou moldando o conteúdo conforme o feedback de vocês.

Agradeço o carinho e a leitura de quem ficou até aqui.
Até logo.