Introdução – Gideon Falls: O Celeiro Negro

Há pouco tempo terminei a leitura do primeiro volume do mangá de horror, Tomie – que até já recebeu resenha aqui no Ler ou Não – e, enquanto aguardava o lançamento da sua conclusão, decidi tirar algumas pendências literárias da minha extensa lista.

Estava buscando algo que fosse pelo menos de um gênero próximo, já que me diverti bastante com essa leitura. Foi então que vi ele, o projeto mais recente da equipe criativa por trás de grandes clássicos modernos para a Marvel e DC Comics, Jeff Lemire e Andrea Sorrentino que, dessa vez, se aventuraram no terror para contar uma história sombria, cheia de mistérios e tensão com a série Gideon Falls.

Mesclando diversos elementos de obras clássicas do gênero, a equipe consegue se destacar em tudo que propõe para o quadrinho. Bom, quase tudo.

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Gideon Falls: O Celeiro Negro – Volume 1 | Capa Ed. Mino (2018)

Obra e autores

Gideon Fall é uma série de quadrinhos escrita por Jeff Lemire, com desenhos de Andrea Sorrentino e colorização de Dave Stewart. Publicada originalmente pela Image Comics de 2018 a 2020, nos Estados Unidos, mas lançada quase simultaneamente no Brasil pela editora Mino.

Como disse anteriormente, a dupla de criadores já é conhecida no mundo dos quadrinhos por ter trabalhado em alguns arcos de personagens populares bastante elogiados pelos leitores e crítica especializada.

Para a DC Comics fizeram a aclamada fase do Arqueiro Verde nos Novos 52 (2012-2014) e as graphic novels Coringa: Um Sorriso De Matar (2019) e Batman: The Smile Killer (2020), ambas exaltadas pelas suas narrativas criativas e obscuras.

Já para a Marvel foram responsáveis pelo grande sucesso do título O Velho Logan na fase All New, All Different Marvel, entre os anos de 2016 e 2017.

Jeff Lemire é um escritor, roteirista e artista canadense, best-seller do New York Times e criador das premiadas obras Sweet Tooth, Condado de Essex, O Soldador Subaquático entre outras.

Reconhecido pela sua versatilidade na escrita, atualmente, Lemire já conta com obras de drama, fantasia, suspense, terror e ficção científica – com títulos como Descender, para a Image Comics e Black Hammer, para a Dark Horse Comics.

O autor também é colecionador de prêmios pelos seus trabalhos ao longo dos anos. Em 2005 ganhou o prêmio Xeric pela graphic novel Lost Dogs e, desde de então, não parou mais de ser condecorado pelos seus méritos literários.

Pouco tempo depois, em 2008, ganhou o prêmio Alex da Young Adult Library Services Association pelo primeiro volume de Condado de Essex e o prêmio Doug Wright de Melhor Talento em Ascensão.

Em seguida, levou dois prêmios Joe Schuster de Melhor Cartunista Canadense, nos anos de 2008 (pelos volumes 1 e 2 de Condado de Essex) e 2013 (por Sweet Tooth e O Soldador Subaquático).

Como se esse portfólio não fosse o bastante, sua lista ainda conta com 8 indicações ao prêmio Eisner, 7 ao Harvey e 8 ao prêmio Schuster. Apenas.

Já Andrea Sorrentino é um desenhista e artista de quadrinhos italiano, popular pelos seus traços fortes e composições de quadros extravagantes em suas obras.

É certo que ele também é bastante elogiado pelos trabalhos na Marvel e DC Comics que realizou junto com Lemire, entretanto, sua carreira ainda conta com títulos como Eu, Vampiro (2011-2012), Fabulosos X-Men (2014), Novíssimos X-Men (2015), O Velho Logan (2015-2017) e Império Secreto (2017).

Porém, vale ressaltar que a primeira obra publicada com a sua arte saiu pela Wildstorm e foi a adaptação para quadrinhos de God of War (2010), que deve aparecer em breve por aqui, mas já adianto que é incrível e conta dois momentos da história de Kratos, alternando entre os períodos de antes e depois de se tornar o Deus da Guerra.

Esse projeto ajudou a deslanchar a carreira de Sorrentino, que assinou contrato de exclusividade com a Marvel em 2015, quando começou seus trabalhos com os títulos de X-Men. Mas, recentemente, voltou a fazer trabalhos com Lemire para a DC Comics com as graphic novels de Batman e Coringa que citei anteriormente.

Dentre os prêmios da sua galeria, o desenhista já conta com um Eisner de Melhor Série para Gideon Falls, em 2018, além de um prêmio de Melhor Artista de Quadrinhos, da IGN, em 2012.

Mesmo nas primeiras edições, Gideon Falls já se mostrava ser uma obra de muito potencial.

Seu sucesso foi tanto que, no mesmo ano de estreia, já promoveu um contrato para uma adaptação seriada, desenvolvida pela produtora do diretor James Wan, Atomic Monster.

E pelo que vi nesse primeiro volume, acredito que pode vir coisa boa por aí.

Contextualização da obra

Em Gideon Falls somos apresentados a dois personagens extremamente diferentes, mas que conduzem a narrativa de modo paralelo durante todo este primeiro volume.

Um deles é um jovem chamado Norton que, logo na primeira página da introdução, aparenta ter algum tipo de distúrbio ou obsessão associada ao lixo. Nos quadros elaborados com um layout digno de nota, podemos ver ele parado em frente a uma pilha de sacos plásticos, usando uma máscara e colocando luvas cirúrgicas para começar a mexer nos resíduos.

Depois de revirar desesperadamente o lixo ele encontra uma pequena lasca de madeira que, a princípio, não parece ter nada de especial, mas seu cuidado para guardá-la em um pote de vidro acaba despertando a atenção do leitor.

Essa curiosidade aumenta assim que Norton chega em seu apartamento localizado em alguma grande cidade e podemos ver que há uma estante repleta de potes semelhantes no seu “escritório” – com objetos de madeira, pregos e pedaços de construção dentro deles. Todos etiquetados com a data e o endereço de onde foram encontrados.

Ao encerrar a misteriosa introdução, a narrativa se volta para um lugar totalmente diferente, onde o segundo protagonista chamado Padre Fred é revelado.

Diferente de Norton, sua história se passa em uma pequena cidadezinha rural com pouquíssimos habitantes, bem típica de filmes de terror dos anos 80.

Por meio de alguns trechos de um diálogo que teve com um líder do clérigo, cujo rosto não é revelado, descobrimos que Fred está se mudando para Gideon Falls, onde irá assumir o lugar do padre Tom Chasely que morreu misteriosamente após 30 anos na congregação.

Tudo parece normal até que, em sua primeira noite na cidade, Fred é acordado no meio da madrugada por uma figura horrenda e misteriosa que pedia para que o seguisse pelo meio do trigo. Um homem que aparentava ser Tom, mas com postura e aparência tenebrosas – além de estar bem mais vivo que ele.

Sem entender muito bem, Fred faz o que o homem manda e acaba o seguindo até um terreno vazio. De repente, como em um pesadelo, um enorme Celeiro Negro aparece em sua frente e, em seguida, some – deixando em seu lugar o cadáver de uma mulher.

Uma outra transição extremamente sutil acontece e voltamos a acompanhar a vida de Norton, mas dessa vez descobrindo um pouco mais sobre os motivos que o deixaram tão “excêntrico”.

Também é o momento em que somos apresentados a Doutora Xu, uma psiquiatra que acompanha o Norton de perto há anos e tenta ajudá-lo a resolver seus problemas pessoais que, no começo, aparentam ser mais psicológicos e sociais.

Entretanto, conforme a narrativa vai se desenrolando, percebemos que o buraco é bem mais fundo. Tudo o que parece ser obra da imaginação do Norton baseada em uma lenda urbana é real e está conectada a algo muito maior.

Aos poucos mais pessoas vão tomando conhecimento do mito do Celeiro Negro. Outras aparições se tornam constantes, registros históricos revelam que esses acontecimentos não são inéditos – com o primeiro datando de 1794 – um grupo secreto denominado “Lavradores” se apresentam como guardiões de Gideon Falls e guerreiros na batalha contra a escuridão, mortes e mistérios se tornam recorrentes e… Tudo isso nas 6 primeiras edições do quadrinho.

Ficou confuso? É bom se acostumar, porque o que eu posso adiantar é que você terminará esse volume, no mínimo confuso.

Análise

Uma “meditação sobre a obsessão, distúrbios mentais e a fé”. Essa frase que está na sinopse da HQ resume muito das minhas percepções iniciais da série, com base neste primeiro volume.

Como há muitos pontos para comentar, vamos por partes, dividindo entre arte e roteiro para que as minhas considerações façam mais sentido ao final da resenha.

Quem já teve contato com outros trabalhos do Lemire, vai se sentir em casa quando começar a ler Gideon Falls. Isso porque a estrutura textual que ele segue em suas obras é muito similar – desde a construção do enredo, apresentação de personagens, desenvolvimento dos acontecimentos e os momentos de impacto.

Particularmente, gosto bastante da escrita e do equilíbrio que o autor tem para conduzir a história.

As cenas de mistérios são construídas por diálogos de personagens que vão apresentando os detalhes da lenda do Celeiro Negro, mas ao mesmo tempo, vão deixando pontas soltas para mostrar que existem muitas camadas ocultas que só serão exploradas futuramente.

Esse ritmo é excelente para controlar as perguntas que vão surgindo na cabeça do leitor conforme os acontecimentos vão se desenrolando. Dessa forma, não somos apresentados de uma vez a todas as tramas paralelas que serão abordadas ao longo da série.

Falar isso até parece ser redundante, pois é de se esperar que qualquer obra siga essa linha de eventos, afinal, a coerência está intrínseca aos princípios básicos de narrativa. Entretanto, acho legal reforçar esse ponto, porque é um mérito do escritor conseguir trabalhar com duas histórias ao mesmo tempo, sem perder o fôlego em nenhuma delas.

Além de estarem sendo contadas simultaneamente, as narrativas vão se intercalando e se complementando, sem deixar de seguir sua própria “linha temporal”.

Como se isso já não fosse complexo de transpor para o papel, ainda há toda mitologia em torno dos protagonistas que ajuda a fomentar os mistérios daquela lenda popular, como a inserção de tramas paralelas e outros personagens – incluindo o próprio Celeiro Negro que, nesse quadrinho, não deixa de ser um dos protagonistas.

É preciso ter habilidade com o texto para conseguir manter tudo isso nos trilhos. Mas para nossa sorte, quem está no controle dessa aventura é Jeff Lemire.

Com isso em mente sobre o texto, vamos falar um pouco da arte do Sorrentino que, não só está espetacular, como também é essencial para a narrativa.

Logo na primeira página, onde o Norton é apresentado, percebemos que o trabalho da equipe criativa é diferenciado. Isso porque em seu principal quadro, o desenho está de cabeça para baixo, como se o observador da cena estivesse em um ângulo oposto ao do personagem – dando a sensação de que a vida daquele cara está do avesso.

Essa composição criativa de layout dos quadros se estende por TODO o quadrinho, porém, vai se modificando de acordo com as necessidades da narrativa em detalhar o máximo possível alguma situação ou mesmo se moldando de acordo com os sentimentos dos personagens.

Quanto mais confuso eles estão, mais confusa a disposição dos quadros se torna.

Essa estranheza em determinados quadros acaba refletindo também em outros aspectos da arte como, por exemplo, na perspectiva, já que em muitos momentos se destoa daqueles ângulos de visão tradicional e busca diversificar ao máximo para aproveitar mais detalhes da cena.

Em outros momentos, além da perspectiva, todo traço da arte muda para reforçar a ideia de que aquela realidade não é a principal e pode ser fruto de delírios, insanidade ou mesmo misticismo.

Isso não chega a ser algo inovador no mundo dos quadrinhos, mas a maneira que é implementada em Gideon Falls torna-se um dos destaques da HQ.

Em alguns momentos a arte assume a posição vertical da página, em outros a cena é desenhada como se vista por uma lente olho de peixe, mas sempre buscando aproveitar o máximo do espaço disponível para ajudar a contar a história e expressar os sentimentos dos personagens.

Os traços são muito bem feitos e estão sempre muito “carregados”, densos – dando um ar de preocupação desde o começo da obra e ajudando a criar a atmosfera de terror iminente. Parece que algo sério acontecerá a qualquer momento.

Isso também é super bem aproveitado nas cores de Dave Stewart. O colorista consegue entender muito bem os momentos certos para usar determinada paleta de cores que irá combinar com o período do dia ou local da cena, de modo que a sensação de perigo persista até mesmo em momentos diurnos.

Além disso, seu trabalho com o uso do vermelho e preto são incríveis – aplicados nos momentos de tensão e, em boa parte da história, sendo usado contraposto a quadros de cores frias.

Um momento que percebemos isso com clareza é quando as narrativas começam a se cruzar e, um dos personagens que está em uma situação mais perigosa está cercado do forte e vermelho intenso, enquanto o outro, em quadros azuis e cinzas.

Outro ponto relevante sobre a pintura é quando cores fortes como o próprio vermelho, são usadas para indicar algum objeto relevante no desenho.

Em certos momentos, os quadros ficam com um aspecto similar a Sin City, com os desenhos em preto e branco e só um pequeno ponto de cor diferente. É um recurso bem interessante para destacar algo que deve ser visto pelo leitor para que se tenha uma compreensão maior da cena.

E por falar em destaque existe outro tipo de “ferramenta” muito usada ao longo do quadrinho, mas que não chega a ser tão legal quanto os outros elementos citados.

Em diversas situações, os quadros recebem um contorno vermelho em elementos importantes ou mesmo para indicar a presença de algum objeto de interação dos personagens, como um celular ou uma arma, por exemplo.

Quando esse destaque é usado para complementar a narrativa, indicando um texto num jornal velho ou objeto que poderia passar despercebido pelo leitor, se torna um recurso bacana.

Contudo, quando seu uso se torna excessivo e desnecessário em momentos que não têm relevância alguma, se torna um verdadeiro incômodo. Não chega a atrapalhar a história em nenhum momento, mas é chato, repetitivo e parece não combinar com a proposta do projeto.

Quando você lê um quadrinho de terror espera ter algumas surpresas ao longo da trama, com detalhes sutis na arte que demandem a sua atenção para entender ou mesmo bolar hipóteses do que irá acontecer.

Mas quando você tem esse auxílio visual, a parte gráfica perde algumas dessas nuances que só seriam percebidas pelos leitores mais atentos – uma técnica que ajuda a criar uma demanda maior de atenção e foco.

No final, esse recurso fica mais parecendo “muletas” para conduzir o texto do que um diferencial narrativo. E o que era uma boa ideia, acaba te cansando rapidamente .

Bom, no geral, o saldo da obra é muito mais positivo do que negativo. O clima de terror é muito bom construído, assim como a ambientação e as motivações dos personagens. Vale a leitura e, com certeza, será uma série que vou continuar acompanhando.

Uma coisa que me veio à mente enquanto lia foi que, para quem conheceu Gideon Falls até o começo de 2019, deve ter achado o Norton bem mais estranho que eu, já que a maior parte do quadrinho ele está usando uma máscara para se proteger de uma contaminação, talvez? (não fica claro neste volume).

Para mim foi uma coisa extremamente natural dada às nossas condições de pandemia. Acho que foi mais estranho ver outros personagens na rua sem máscara do que o próprio Norton. Sei lá, achei engraçado pensar nessa facilidade de adaptação que temos e, uma coisa que era considerada excêntrica agora é comum – impactando até mesmo nossas reações ao ler uma obra.

Enfim. Maior doidera.

Edição

A edição da editora Mino segue o padrão de lançamento da versão americana, compilando os seis primeiros fascículos da série neste volume.

No total, são seis volumes, sendo que os cinco primeiros seguem o mesmo formato de compilação. O último conta apenas com o Nº27 (com cerca de 80 páginas) e extras, mas está previsto para ser lançado nos Estados Unidos só no dia 04 de maio.

A edição em si tem uma qualidade bastante alta, com papel couchê de boa gramatura, impressão bacana, assim como uma diagramação no padrão de qualidade da editora. Minha única crítica ao material é o acabamento escolhido.

Aqui no Brasil foi adotado o formato capa dura, enquanto no exterior, a Image Comics optou por manter a capa cartão. Por mais que a capa dura dê um aspecto mais premium, acaba encarecendo o produto consideravelmente – e é aí que mora outro ponto de atenção para quem está interessado no material.

Fiz minha compra em uma promoção da Amazon e paguei R$38,20 – um excelente desconto, já que o valor de capa do encadernado com 160 páginas (contendo apenas 3 páginas de extras com a arte das capas de cada edição) é R$79,90.

Sei que esse momento não é muito atrativo para os colecionadores de quadrinhos e tudo está bem caro. Sendo assim, eu aconselho que espere uma promoção. Vira e mexe aparecem descontos especiais na Amazon ou comics shops como a Loja Monstra e Comix, ou mesmo no site da própria editora.

Gostei bastante do que vi até aqui e estou curioso com os caminhos que a narrativa irá seguir nos próximos volumes.

Então, se vocês curtiram a resenha, não deixem de comentar para que eu possa trazer minhas avaliações das edições seguintes, assim como uma conclusão após o encerramento da série.

Agradeço a leitura e paciência de todos que chegaram até aqui.
Até logo!